O TRADUTOR GRACILIANO RAMOS

 

Elizabeth Ramos – UFBA

 

 

As diferentes pesquisas e artigos publicados a respeito de Graciliano Ramos abordam sua obra sob diferentes primas.  Pouco, no entanto, tem sido dito sobre o fato do Velho Graça ter sido autor da tradução de duas obras para o português do Brasil: Memórias de um Negro, do americano Booker T. Washington  e A Peste, do francês Albert Camus.

Esta comunicação terá como objetivo observar e analisar algumas das soluções encontradas pelo romancista na tradução das memórias de Washington, originalmente publicadas nos Estados Unidos em 1901 sob o título Up from Slavery, e lançadas no Brasil em 1940 pela então Companhia Editora Nacional.

Booker T. Washington nasceu escravo, em algum lugar no estado da Virgínia, Estados Unidos, entre 1858 e 1859. Cresceu num ambiente de miséria e desolação, tendo vivido numa cabana com a mãe, uma irmã e um irmão até depois da Guerra Civil Americana, época em que se deu a Abolição da escravatura em seu país. Adquiriu educação escolar com dificuldade e fundou em 1881 uma escola vocacional no estado do Alabama, na cidadezinha de Tuskegee, que adquiriu renome e que se dedicava à formação de crianças e adultos negros. Washington tornou-se um respeitado educador nos Estados Unidos, tendo lutado pacífica e incessantemente pelos direitos da raça negra naquele país, sendo considerado um dos pioneiros do Panafricanismo.

Suas memórias constituem um relato de uma parcela importante da história dos Estados Unidos, no período compreendido entre 1867 e 1878, denominado Período de Reconstrução. Enfocam mais especificamente a inserção do negro na vida social, política e acadêmica do país, através do processo de educação, processo esse que Washington considerou o mais importante para a construção de uma raça forte e respeitada.  O pensamento do educador pode ser tido, na realidade, como uma semente daquilo que mais tarde seria chamado de Emenda dos Direitos de Igualdade Civil. “Apesar de novo nesse tempo, eu via muita coisa errada que não podia durar. Fazia-se com os negros uma política artificial, baseada em principios falsos. Da ignorancia delles aproveitavam-se os brancos para galgar postos elevados.” (p.62) “Estou certo de que o futuro político do negro estará garantido quando os Estados que acharem conveniente modificarem a sua legislação eleitoral elaborarem leis imparciaes que se appliquem igualmente ás duas raças.” (p.63)

Booker T. Washington se impôs o dever de trabalhar pela educação da parcela excluída de seu povo, aí incluída não só o negro, mas também o índio. “... o americano de pelle branca só julga civilizado o homem que se vista como elle e se alimente como elle, fale a sua lingua e pratique a sua religião.”

Seu relato revela ainda a busca de convivência com o Outro, na medida em que  descobre o índio. Refere-se ao seu contato com as crianças indígenas, com as quais nunca havia convivido, afirmando:

 

Descobri que eram pouco mais ou menos como todas as criaturas humanas, sensíveis á bondade e rebeldes á violencia. [...] O que mais os descontentava era a obrigação de cortar os cabellos, não fumar e abandonar os cobertores de lã que lhes serviam de roupa. (p.71)

 

A autobiografia é, entretanto permeada por um discurso conciliatório entre negros e brancos, que muitas vezes tende ao exagero e adquire tom panfletário de propaganda em favor dos Estados Unidos, como no trecho seguinte:

 

Se me refiro a esse episódio triste, é apenas com o fim de mostrar a mudança que se operou no Sul desde o tempo do Ku Klux Klan. Essa horrivel associação desappareceu, até o nome della está hoje esquecido. Em poucos lugares do Sul o espirito publico supportaria agora a existência de semelhante organização. (p. 58)

 

Conta que quando chegou ao Alabama, a comunidade negra se interessava pela política e queria acaudilhá-lo com o seguinte discurso:

 

É preciso que o amigo vote comnosco. Não sabemos ler jornaes, isto não sabemos, mas sabemos votar, e é preciso que o amigo vote comnosco. Observamos cuidadosamente os brancos até conhecermos para que lado pendem os votos delles. Votamos então em sentido contrario, e estamos certos de que, procedendo assim, não erramos.

 

Sobre essa observação, Washington conclui:

 

Atualmente essa tendencia para votar contra o branco, porque é branco, pouco a pouco desapparece: os negros começam a enxergar os principios e a eleger os individuos recommendados pelo interesse geral. (p.80)

 

Sabe-se que no início do século a prática de voto independente, em nome do interesse geral,  não vigorava nos Estados Unidos, até porque, dado o rígido sistema de opressão e segregação, a maioria dos negros e muitos dos brancos pobres haviam tido seu direito de voto cassado por não pagarem os impostos individuais e por não serem aprovados nos testes de alfabetização. Observe-se que tais limitações eram basicamente fruto do próprio regime segregacionista.

No último quartil do século XIX, surgia nos Estados Unidos o  Movimento de Auto-Ajuda, que conclamava a comunidade negra a responder à crescente tensão e violência racial  através da auto-ajuda, da solidariedade e do orgulho da raça. Com essa filosofia as comunidades negras buscavam mais poder e justiça social. A luta para se atingir os objetivos deveria se dar, no entanto, não por meio de agitação política, mas através de esforços econômicos altamente organizados com o objetivo de se construir uma força econômica negra forte, dentro de rígidos padrões de moralidade. Diante da hostilidade e  dos atos de violência racial, resultantes da segregação, os negros concentravam sua energia no desenvolvimento das suas próprias comunidades e instituições. Era recomendado que a juventude negra observasse os princípios de moralidade, hábitos equilibrados, adquirisse terras e as técnicas agrícolas, se inserisse nas artes, ciência e literatura.

A narrativa pacifista e conciliadora de Booker T. Washington  reflete, pois a filosofia do Movimento de Auto-ajuda, e revela um líder que se  mostra sempre compreensivo, mesmo em um cenário povoado de hostilidade, destruição e morte. Manifesta repetidas vezes que tal posicionamento acabava por lhe ser favorável, conferindo à escrita um tom romantizado da luta contra o segregacionismo. Encerra, por exemplo, suas memórias em Richmond, na Virginia, como convidado da comunidade negra local, para proferir um discurso para ambas as raças na Academia de Música, o salão mais fino e maior da cidade, onde, segundo ele “nunca um homem de côr tinha tido permissão para [dela] servir-se”. Na ocasião, afirma que “... dei minha mensagem, de esperança e alegria; e do fundo do meu coração agradeci às duas raças o acolhimento que me dispensaram no Estado onde nasci”. Claro está que Washington direcionava seus esforços em angariar a boa vontade dos brancos sulistas, cujo apoio acreditava fosse vital para o avanço das questões raciais.

Quando a tradução da autobiografia de Washington, Memórias de um Negro, foi publicada no Brasil, Graciliano Ramos já havia sido preso (1936-1937), já havia publicado Caetés, São Bernardo, Angústia, Vidas Secas e exercia a função de Inspetor Federal de Ensino, no Rio de Janeiro.

O autor ateu e pessimista, que nunca pode sair de si mesmo, que afirmava só poder escrever o que era, e cujas personagens são revoltadas, nostálgicas da morte, pessimistas, “magras”, amargas, instrospectivas, desconfiadas, gente cujo sofrimento, na maioria das vezes, gera a desesperança, assina a tradução das memórias e trajetória de um homem otimista, crédulo e religioso, que buscou na educação o objetivo central de sua vida.

Pode-se, no entanto, com as próprias palavras de Graciliano, justificar a “escolha” do texto traduzido. Em entrevista que concedeu a Homero Senna, em 1948 para a revista do Globo afirmou que “se as personagens se comportam de modos diferentes, é porque não sou um só”.

O Velho Graça pode ter admirado em Booker T. Washington, traços do seu eu que fazia questão de sufocar como o orgulho e a audácia. A luta explícita do americano pela igualdade de direitos de seu povo e a valorização do processo de educação para a construção de uma sociedade mais justa e forte, podem ter sido pontos decisórios na decisão de Graciliano em revelar para o leitor brasileiro a trajetória do educador.  É preciso que se diga no entanto que, ao longo de sua tarefa de tradutor, Graciliano aludiu freqüentemente à baixa qualidade da escrita de Washington.[1]

As memórias de Booker T. Washington não têm, no entanto, o valor literário de Memórias do Cárcere ou de Infância, publicada cinco anos depois desta tradução. Não existe o entrecruzamento de memória e ficção, não há o romanesco, e sim a narrativa de fatos. Tampouco se observa o conflito entre a individualidade e a sociedade, a ponto de gerar uma impossibilidade de comunicação.

Sua linguagem e seu estilo não são sóbrios, nem discretos, mas se constituem em boa fonte de estudos históricos, sociais e culturais. Esses ingredientes podem ter atraído a atenção de Graciliano, permitido-lhe, de certa forma, investigar sua própria natureza, olhar para dentro de si e simultaneamente sair de si mesmo,  ao dar voz em português a um homem que falava com orgulho sobre suas conquistas.

Pode ser no entanto que essas razões não passem de uma tentativa de romantização da  assinatura da tradução. Graciliano pode não ter tido direito à escolha do texto, e ter assumido a tarefa de tradutor como resultado da costumeira falta de dinheiro. Pode ainda ter buscado aplacar o marasmo do repouso a que se submetia por recomendação médica.

Portanto, como no momento da construção deste artigo ainda não estão claras as razões que levaram Graciliano a traduzir Up from Slavery, esta comunicação trata fundamentalmente das características literárias do autor que se fizeram presentes na tradução.

Na qualidade de autor maduro, que não se anulava literariamente, apesar do aparente despreso que demonstrava por sua criação literária, é naturalmente esperado que Graciliano Ramos deixasse transparecer suas características de romancista na tarefa de tradutor. O leitor se depara, portanto, com uma obra de transcriação e não de tradução tradicional. O Velho Graça recriou um Booker T. Washington com linguagem incisiva, de léxico mais despojado, simples e magro, com uma sintaxe mais clássica e rígida. Na medida do possível, recusou-se a fazer uso do pitoresco, do piegas, do vulgar e do sofisticado.  Em outras palavras, Graciliano nem sempre conseguiu separar a voz de Booker T. Washington da sua própria.

A impressão que se tem ao fazer a análise comparativa entre o original e o texto traduzido, é que ao torná-lo mais conciso, o tradutor certamente teria dito “vá para o inferno Booker, você acanalhou o troço. Está persnóstico, está safado, está idiota. Há lá ninguém que fale dessa forma”. Assim, iluminado pelo signo de Paulo Honório, Graciliano se dispôs a enxugar o texto que traduziu, como nos exemplos que se seguem.

 

“When war was begun between the North and the South, every slave on our plantation felt and knew that, though other issues were discussed, the primal one was that of slavery.” (p.6)

“Durante a Guerra nenhum escravo lá ignorava que, embora houvesse outros negocios em jogo, o principal era a escravidão.” (p.6)

 

“The first pair of shoes that I recall wearing were wooden ones. […] When I walked they made a fearful noise, and besides this they were very inconvenient, since there was no yielding to the natural pressure of the foot. In wearing them one presented an exceedingly awkward appearance.” (p.8)

“Os primeiros sapatos que usei eram de pau. [...] Quando eu andava, faziam um barulho dos diabos; além disso eram incommodos, não havia meio de calçal-os direito. Esses tamancos nos davam um ar confuso e ridiculo.” (p.8)

 

No trecho em que o autor se refere à data de início dos trabalhos da nova escola de Tuskegee, podem-se observar bons exemplos de concisão:

 

“The white people, as well as the coloured, were greatly interested in the starting of the new school, and the opening day was looked forward to with much earnest discussion. There were not a few white people in the vicinity of Tuskegee who looked with some disfavour upon the project. They questioned its value to the coloured people, and had a fear that it might result in bringing about trouble between the races.” (85)

“Os pretos interessavam-se pela nova escola e esperavam impacientes a inauguração, mas varios brancos dos arredores viam com maus olhos o nosso projeto: duvidavam que elle fosse util aos negros e temiam sobretudo uma scisão entre as duas raças.” (85)

 

Mesmo com as diferenças de estilo existentes entre o autor e o tradutor, o texto traduzido não soa falso com o uso de linguagem mais simples, conforme nos exemplos a seguir.

 

“I do not believe that one ever experiences anywhere else such darkness as he does in a coal mine.” (p.28)

“Julgo que em parte alguma há trevas tão medonhas como nas minas de carvão.” (p.28)

 

“The idea, however, was too prevalent that, as soon as one secured a little education, in some unexplainable way he would be free from most of the hardships of the world, and, at any rate, could live without manual labour.” (p.57)

“… mas desgraçadamente quasi todos pensavam que, obtendo um pouco de instrucção, ficariam livres das maçadas deste mundo ou, pelo menos, das canceiras do trabalho manual.” (59)

 

This was the first time that I had ever heard anything about any kind of school or college that was more pretentious than the little coloured school in our town.” (p.30)

Até então, relativamente a casas de ensino, eu só tinha ouvido falar em coisas miúdas como a que existia na cidade onde morávamos.” (p.31)

 

To take the children of such people as I had been among for a month, and each day give them a few hours of mere book education, I felt would be almost a waste of time.” (85)

“Evidentemente era um erro prender numa classe durante horas as crianças que ali viviam soltas, como bichos.” (85)

 

Talvez pela importância que depositava ao uso rígido da gramática clássica, Graciliano optou por não fazer a equivalência da variante lingüística no diálogo que aparece a seguir. O hiato é, no entanto preenchido com um bom exemplo de tradução de humor:

 

“Uncle Jake, I will give you guitar lessons; but, Jake, I will have to charge you three dollars for the first lesson, two dollars for the second lesson, and one dollar for the third lesson. But I will charge you only twenty-five cents for the last lesson.”

 

“All right, boss, I hires you on dem terms. But boss! I wants yer to be sure an’ give me dat las’ lesson first.” (67)

“ - Tio Jake, você terá licções de guitarra. Cobro-lhe tres dollars pela primeira, dois pela segunda, um pela terceira e meio pela quarta.

 

 

 

- Muito bem, patrão, concordou tio Jake. Está feito o negócio. Mas o senhor não poderia começar pela quarta lição?” (p. 68)

 

“We wants you to be sure to vote jes’ like we votes. We can’t read de newspapers very much, but we knows how to vote, an’ we wants you to vote jes’ like we votes. […] We watches de white man, and we keeps watching de white man til we finds out which way de white man’s gwine to vote; an’ when we finds out which way de white man’s gwine to vote, den we vote ‘xactly de other way. Den we knows we’s right.” (80)

É preciso que o amigo vote comnosco. Não sabemos ler jornaes, isto não sabemos, mas sabemos votar, e é preciso que o amigo vote comnosco. Observamos cuidadosamente os brancos até conhecermos para que lado pendem os votos delles. Votamos então em sentido contrario, e estamos certos de que, procedendo assim, não erramos. (80)

 

 

Apesar de se referir ao dólar no exemplo acima, as referências à moeda foram, não raro, simplificadas ou domesticadas:

 

I was hired at a salary of $5 per month.” (p.31)

“… e empreguei-me com salário bem modesto.” (p.32)

 

“Some of these older people would give me a nickel, others a quarter, or a handkerchief.” (p.33)

“E as ofertas surgiram: moedas de cobre, nickel e prata, lenços.” (34)

 

Alguns traços culturais do original foram domesticados com a cor local na sua tradução. “Town” foi simpaticamente traduzida como cidadezinha; “five miles” como légua e meia; “hardware store” deixou de ser uma mera loja de ferragens, para se tornar uma loja de quinquilharias. Além desses há outros exemplos de soluções em que Graciliano Ramos imprimiu sua marca de linguagem simples.

 

“... the son of “old Mars’ Tom, who will perhaps never be permitted to suffer while any remain on the place who know directly or indirectly of “old Mars’ Tom.” (p.10)

“O filho do do velho Senhor Tom não encolherá a barriga emquanto houver por ali quem, de perto ou de longe, tenha conhecido Senhor Tom.” (p.10)

 

“As a result of the system, fences were out of repair, gates were hanging half off the hinges, doors creaked, window-panes were out, plastering had fallen but was not replaced, weeds grew in the yard.” (p.13)

“Por isso as cercas se estragavam, as portas rangiam ou sahiam dos gonzos, os vidros se quebravam, o reboco não se concertava, o pateo se cobria de hervas.” (p.13)

 

“... when the family got up in the morning, for example, the wife would put a piece of meat in a frying-pan and put a lump of dough in a “skillet”, as they called it. These utensils would be placed on the fire, and in ten or fifteen minutes breakfast would be ready.” (82)

“… Pela manhã, ao levantar-se, a mulher punha um pedaço de carne na caçarola e farinha no tacho, levava esses utensilios ao fogo, e dez minutos depois o almoço estava prompto.” (82)

 

Pode-se observar no último exemplo, que breakfast é traduzido como almoço, implicando modificação da rotina do trabalhador rural expressa no original.

Ao contrário do romancista impecável, como tradutor Graciliano fez opções que normalmente são criticadas. Eliminou orações, traduziu nomes próprios (James x Jayme, John x João) quando a tendência é deixá-los na forma original, traduziu “black belt”, a região onde viviam os escravos, por cintura negra, e “counties” por estados.

Mas o autor que estudava os dicionários para poder jogar com as palavras, certamente teve suas razões para as soluções que encontrou. Se por um lado em alguns momentos demonstrou claramente sua recusa em priorizar o texto original, por outro terminou por revitalizá-lo e garantir um pouco mais de qualidade à linguagem da autobiografia, com frases mais curtas, léxico mais simples e exato dentro de uma nova estrutura sintática e cultural. A tradução de Graciliano é, para cunhar um prefixo usado por Haroldo de Campos, uma trans-memória com efeito de denúncia, tal qual a sua obra. O homem íntegro e romancista impecável que em 1937 achava sua trajetória muito pouco “enfeitada” para lhe garantir uma biografia, tirou os enfeites e pretensões das memórias de Booker T. Washington e nos brindou, cinco anos depois, com a riqueza literária de suas próprias memórias em Infância.



[1] Segundo informações de Luiza Ramos Amado, filha de Graciliano Ramos.